Apropriação vs Autonomia: o dilema latino-americano
A nova Rota da Seda Digital chinesa rumo à LATAM poderia encontrar mais espaço no vazio deixado pelo multilateralismo em ruínas e pelas alianças tradicionais enfraquecidas pelas guerras comerciais. A onda de controles de exportação emitida pelo governo Trump busca frear a China em seu caminho rumo à Inteligência Artificial Geral. Mas essa contingência bastará?
Primeiro, a DeepSeek surpreendeu técnicos e mercados ao lançar modelos de IA competitivos a uma fração do custo de seus rivais norte-americanos, mostrando que o modelo chinês de execução de cima para baixo pode ser igualmente eficaz e mais engenhoso. Segundo, a batalha pelos chips é crucial, mas apenas a linha de frente da guerra pela supremacia tecnológica. A China começou a construir suas políticas de coerção e apropriação muito antes de seus rivais, antecipando que as alianças baseadas em valores seriam substituídas por outras baseadas em interesses.
É possível que alguns aliados decidam que, embora prefiram os EUA, a China é ao menos mais previsível. Seria uma posição insana para esses países. Mas seria o resultado quase inevitável da abordagem mafiosa de Trump nas relações internacionais.
Martin Wolf Financial Times
A nova Guerra Fria é muito mais quente em mais frentes e com mais jogadores do que EUA e China querendo tomar o palco. Tome a Índia, que agora figura entre os 5 primeiros em 45 de 64 tecnologias consideradas críticas pelo ASPI. Tome a Arábia Saudita e os EAU, que gastam centenas de bilhões de petrodólares para se tornar hubs tecnológicos e geopolíticos. Isso pode mudar agora, com uma geopolítica mais populosa e guiada por interesses mais egoístas.
O tipo de regime já não parece atrapalhar um senso de interesses compartilhados. É apenas poder duro, e um retorno ao antigo princípio de que "os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem". Em tal mundo, as instituições multilaterais como a OTAN e a UE ficariam à margem e a autonomia das nações menores, ameaçada.
Monica Duffy Toft Foreign Affairs
Com menos Ocidente e mais Resto disputando o domínio tecnológico, a América Latina será sem dúvida uma nova frente de batalha para a inovação. Quem se apropria do quê está por ver.
Nosso objetivo com o LADP é apresentar uma perspectiva holística do estado de Deep Tech e trazer ideias críticas sobre os desafios de escalonamento para a região. Mais importante ainda, buscamos apresentar uma série prática de recomendações sobre o que nós, como região, devemos fazer para avançar o panorama de investimento rumo às tecnologias que moldarão nosso futuro. Esse processo envolve o desenvolvimento meticuloso de uma robusta propriedade intelectual e uma transferência de tecnologia longa e estratégica da academia ao setor comercial, assentando a base indispensável para uma inovação comercial revolucionária.
Fechar com êxito essa lacuna crítica exige investimento sustentado e mecanismos de apoio sob medida, que facilitem a árdua, porém recompensadora, jornada da descoberta científica às soluções prontas para o mercado. Ao nutrir sistematicamente esse intrincado ecossistema, a região pode destravar todo o seu potencial, transformando a pesquisa de ponta em crescimento econômico tangível e liderança global em Deep Tech.