11
Coalizão Regional Estrutural · 3–5 anos

Ancorar a P&D Pública

Orçamentos públicos de P&D em patamar de infraestrutura

A ALC investe 0,57% do PIB em P&D contra 1,92% da média global, em ciclos anuais curtos. Ponha a deep tech estratégica no patamar da infraestrutura e converta a rubrica de P&D em cofinanciamento plurianual.

O fundamento

O dinheiro público sustenta a maior parte do financiamento de P&D na região e chega no compasso errado. O gasto em P&D da ALC está em 0,57% do PIB contra 1,92% no mundo, o Estado banca cerca de 60% desse total e o desembolso ocorre por editais anuais que expiram antes que um programa de hardware ou de biologia alcance um marco técnico. No Brasil, 36% das deep techs dependem exclusivamente de recursos públicos e 47% não receberam investimento algum, de modo que o edital funciona como todo o balanço da empresa até o caixa acabar, e nunca como ponte para o capital privado.

Três instrumentos já em operação na região dão conta do trabalho, desde que ganhem escala e prazo. Os fundos de contrapartida coinvestem capital público ao lado do privado e cobrem tipicamente de 40 a 60% dos custos elegíveis; os aportes reembolsáveis da CORFO, no Chile, cobrem de 40 a 65% do custo privado de P&D, e o Uruguay Innovation Hub mantém desde maio de 2024 um programa 1:1 de US$10 milhões. As Zonas Econômicas Especiais aprimoradas trocam benefícios fiscais por prazos cronometrados de licenciamento. O que transforma qualquer um deles de subsídio em investimento âncora é um horizonte de compromisso plurianual inscrito em lei.

A objeção de sempre é que governos não conseguem escolher vencedores e não deveriam tentar. O programa Yozma de Israel, de 1993, responde a ela pela estrutura: o Estado forneceu capital e regras, e gestores privados selecionaram as empresas. A objeção fiscal é mais difícil e merece resposta direta, e é por isso que o primeiro movimento aqui reprograma dotações que já existem em vez de pedir novas. O alvo é a lacuna de composição. Nas economias avançadas, o setor empresarial responde por mais de 60% do financiamento de P&D; na LATAM o Estado carrega cerca de 60% e a parcela privada aparece como 35% em um capítulo do relatório e 43% em outro, o que é, por si só, o argumento para publicá-la como faixa e para alongar o compromisso público até que o dinheiro privado tenha o que seguir.

A evidência

0,57% vs. 1,92% Gasto em P&D da ALC como parcela do PIB frente à média global, 2023 UNESCO Institute for Statistics (UIS), 2026
36% / 47% Deep techs brasileiras que dependem apenas de recursos públicos e as que não receberam investimento algum, 2025 EMERGE (Emerge Brasil) & Cubo Itaú, 2025-09-11
~60% público vs. 35–43% privado Participação do governo frente à do setor privado no financiamento de P&D na LATAM, publicada como a faixa que o próprio relatório imprime ECLAC / CEPAL, 2022

O que destrava

Recursos públicos de P&D comprometidos no prazo real de hardware e biologia, com um term sheet de contrapartida que o empreendimento protocola em três países.

Já foi feito antes

Israel, o programa Yozma (1993)

O Estado aportou US$100 milhões em dez fundos de risco estruturados com 40% público e 60% privado, cabendo aos gestores privados a seleção das empresas. Os fundos semeados pelo Yozma administram hoje mais de US$10 bilhões e são creditados por mais de US$80 bilhões em criação de valor. O programa veio depois da Lei de P&D de 1985, que reembolsava até 50% da P&D corporativa e elevou o gasto privado israelense em P&D a 4% do PIB. Os números são os publicados pelo BID em 2023, acumulados até aquela data, e não foram reverificados de forma independente.

Inter-American Development Bank (IDB Lab), 2023

Primeiros movimentos

  1. 0–6 meses

    Reprogramar a rubrica de P&D existente

    Converta editais anuais em verticais nomeadas de deep tech em tranches comprometidas de três anos com liberação condicionada a marcos, usando dotações já aprovadas em vez de dinheiro novo. Entregável: um edital revisado por agência, publicado com seu cronograma de tranches e critérios de liberação, antes de fechar o próximo ciclo orçamentário.

    Agências nacionais de inovação (FINEP e BNDES no Brasil, CORFO no Chile, ANII e o Uruguay Innovation Hub) com os ministérios da fazenda
  2. 6–18 meses

    Padronizar o term sheet dos fundos de contrapartida

    Publique um modelo regional único de fundo de contrapartida, com uma faixa de cobertura declarada por país, definições comuns de custo elegível e prazo de decisão de 90 dias, para que um empreendimento que opera em três países protocole uma única vez. Entregável: um modelo adotado por ao menos três agências, cada uma declarando seu próprio percentual de cobertura em vez de uma média regional.

    IDB Lab, agências nacionais de inovação e o secretariado da coalizão LADP
  3. 18–36 meses

    Legislar o patamar de infraestrutura

    Inscreva campos estratégicos de deep tech nomeados no mesmo estatuto plurianual de planejamento de capital que já cobre portos, redes elétricas e telecomunicações, combinado com autoridades de ZEE sujeitas a prazos legais de serviço para o licenciamento. Entregável: ao menos um país com uma rubrica de deep tech protegida ao longo de um ciclo eleitoral e um prazo publicado para cada etapa de aprovação.

    Congressos nacionais, ministérios do planejamento e autoridades de ZEE

Como saberíamos que funcionou

  • Parcela do financiamento nacional de deep tech comprometida em tranches plurianuais em vez de editais anuais, reportada anualmente por cada agência de inovação, superando 50%
  • Prazo mediano em dias entre a solicitação ao fundo de contrapartida e a decisão, publicado trimestralmente por CORFO, FINEP e ANII, caindo abaixo de 90
  • Investimento privado em deep tech por país frente ao desembolso público, acompanhado no EMERGE Radar e no registro do LADP, com os US$216 milhões privados do Brasil em 2024 subindo rumo à sua participação nas empresas da região
  • Gasto em P&D da ALC como parcela do PIB na publicação do UNESCO UIS, saindo de 0,57% rumo a 1%

O que pode dar errado

Captura pelos incumbentes

Os fundos de contrapartida premiam quem já dispõe de capital privado para igualar, o que na prática significa empresas estabelecidas e laboratórios bem relacionados, enquanto os empreendimentos para os quais o instrumento existe seguem sem financiamento. Contenção: publique as listas de candidatos e de selecionados com ano de fundação e captação prévia, limite a parcela de cada edital destinada a empresas acima de um patamar declarado de receita e reserve uma tranche para candidatos que se inscrevem pela primeira vez.

Reversão no ciclo eleitoral

Um compromisso plurianual criado por decreto sobrevive até o próximo governo, prazo mais curto que um ciclo de desenvolvimento em deep tech, e uma tranche cancelada mata a empresa, não a política. Contenção: coloque o compromisso em lei, com cláusula explícita de vigência e revisão de renovação, em vez de em decreto, e estruture o desembolso como tranches contratuais com o empreendimento, para que o cancelamento tenha custo para o tesouro.

Quem age

Formuladores de políticasFundadores

Apoia-se em

14 Pesquisa e Visibilidade Um bem comum de dados abertos e um catálogo de financiamento

08 Portabilidade Regulatória 33 países, um 34º regime opcional

Os dados que a sustentam

Quem financia a pesquisa
parcela de P&D financiada por empresas (%)
América Latina35%
Estados Unidos e Europa60%
China80%

As empresas cobrem cerca de 35% da P&D na América Latina, contra 60% ou mais nos Estados Unidos e na Europa e quase 80% na China. O escasso financiamento privado à pesquisa é um freio estrutural para a deep tech.

Conforme publicado originalmenteAtualizado em 2019Relatório p.48

Conforme publicado no relatório, setembro de 2025.

FontesECLAC / CEPAL, Ciencia, tecnología e innovación: cooperación, integración y desafíos regionales (LC/TS.2022/156); UNESCO Institute for Statistics (UIS), 2026 R&D Data Release